Veículos de Cultura e Lazer - O Caso da Estrada Nacional 379-1 (Outão/Portinho da Arrábida)
No momento em que são dados passos decisivos para a conclusão do PRN e quando se consolidam exigências de inovação e qualidade das novas estradas, faz-se simultaneamente um grande esforço para a requalificação de determinados eixos que pela peculiaridade da paisagem ou riqueza patrimonial que desvendam, se reconhecem como um valor a preservar e são identificados como polos dinamizadores socioeconómicos dos territórios que atravessam. Esta duplicidade de objetivos entende-se porque o propósito principal da viagem nem sempre é a rapidez em chegar. Alguns trajetos definem-se através de estradas anódinas que serpenteiam serras e se desenham em curvas e socalcos, intrometendo-se na vida quotidiana das populações e na quietude das paisagens.
E em Portugal não é difícil encontrar eixos rodoviários desta natureza, cuja estrutura sublinha de forma evidente a riqueza paisagística, natural ou patrimonial que podemos identificar em muitos lugares. Mais do que simples instrumento de circulação contêm um grande valor patrimonial, inseparável da paisagem que atravessam, das narrativas que se desenrolam à sua beira, das personagens que a cruzam e dos horizontes e das gentes que em seu redor se acomodaram ao longo dos séculos.
É essa componente indivisa entre a estrada e a vida que a Estradas de Portugal pretende também promover. Uma complementaridade que reforça a coesão do País mas igualmente a sua afirmação local e cultural: umas rápidas e eficientes favorecendo a segurança na circulação rodoviária e diminuindo distâncias entre as periferias e os centros económicos e políticos; outras que desde há muito são parte integrante da paisagem e se constituem num bem patrimonial e cultural.
A EN379-1 é um exemplo elucidativo de um eixo que relata de forma expressiva uma paisagem de beleza incomparável, património único espelhado em valores geológicos, de vegetação, fauna e presença humana desde épocas remotas. Construída na década de sessenta, localizada no concelho de Setúbal, desenvolve-se ao longo da cumeada e no sopé da vertente meridional da Serra da Arrábida com uma extensão de cerca 27 quilómetros e teve na sua génese o uso turístico e de lazer mas também ser via de acesso a uma unidade de saúde no Outão e às instalações fabris da Secil.
Permeia o Parque Natural da Serra da Arrábida, uma zona ecologicamente protegida, criada em 1976 por razões de ordem científica, cultural, histórica e paisagística. O Parque estende-se por uma área de 10.800 hectares, abrangendo áreas dos concelhos de Setúbal, Palmela e Sesimbra, considerado de alto valor nacional, a sua função é ajudar a preservar uma riqueza única.
Razões de uma Reabilitação Indispensável
A zona intervencionada desenvolve-se entre o Outão e o Portinho da Arrábida onde as condições geológico-geotécnicas da encosta sobranceira à via, nos últimos anos, provocaram ocorrências frequentes de queda de blocos de maior ou menor dimensão. Desmoronamentos que acarretaram danos em estruturas e infraestruturas existentes e o alarme foi dado por potenciais cenários de rutura em determinadas zonas.
Mas um acontecimento lamentável veio precipitar todo o processo ao romper com o equilíbrio geológico que restava e com consequências desastrosas para todo o ecossistema vigente: foi o grande incêndio de 2004 que devastou uma vasta área, parte significativa de uma vegetação endógena, fendendo o equilíbrio ecológico. O desaparecimento da vegetação veio provocar enorme instabilidade na encosta e causou perigo acrescido de derrocadas com a consequente possibilidade de afetação de pessoas e bens.Razões que determinaram a interdição deste troço em junho de 2004. O facto teve relevantes implicações na economia local, nomeadamente no sector do turismo, por ser um eixo fundamental de acesso ao Parque Natural da Serra e, no Verão, às praias da Figueirinha, Galapos, Coelhos e Portinho da Arrábida.
Foi então que se lançou esta empreitada com o objetivo de realizar intervenções tanto na encosta sobranceira à via, de forma a controlar os efeitos de eventuais instabilidades, como na própria via. As condicionantes de ordem técnica, ambiental e mesmo construtivas exigiram soluções de enorme complexidade e obrigaram a uma intervenção inédita em Portugal, cujo exemplo mais esclarecedor foi o de ter sido necessário formar cerca de 70 trabalhadores em técnicas de alpinismo.
Estratégia de Intervenção: Estudos e Condicionantes
Em primeiro lugar foi necessário estudar a estrutura do maciço rochoso de forma a identificar as diversas intervenções, ao mesmo tempo que se balizavam as áreas que ofereciam maior perigo e colocavam em causa a segurança das pessoas e dos bens. Dois momentos prévios e indispensáveis na preparação do projeto de intervenção: a) Caracterização geológica da zona da intervenção. Quantificaram-se e caracterizaram-se as unidades Lito estratigráficas presentes no troço intervencionado; b) Zonamento do perigo da queda dos blocos. Um estudo que se fundamentou na recolha de dados relativos a ocorrências passadas, um trabalho desenvolvido pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e relativo ao estudo dos diferentes tipos de instabilidade e soluções de reforço nos taludes e encostas rochosas deste troço. Fundamentou-se, igualmente, na análise informática (por simulação) da queda de blocos segundo perfis da vertente, tendo em conta o perfil topográfico e as características físicas e mecânicas dos materiais que constituem as encostas. Esta avaliação definiu três zonas diferenciadas: zona de perigo muito elevado, de perigo elevado e de perigo baixo ou nulo.
Inserida numa área protegida e de forma a respeitar e preservar o valor ambiental e paisagístico da área intervencionada, a vertente ambiental foi uma condicionante substancial no processo de escolhas a adotar para assegurar a estabilização das encostas. Um trabalho desenvolvido em consonância com técnicos do Instituto de Conservação da Natureza de forma a encontrar soluções para acautelar os riscos mas sem impor impactes negativos expressivos. Ou seja, as soluções adotadas refletem um compromisso entre a necessidade de maximizar a segurança e diminuir a intervenção na encosta bem como minimizar o impacte visual e equilíbrio ecológico, em relação à vegetação e fauna.
Estabilização das Encostas - Soluções Adotadas
Todas as estruturas previstas foram condicionadas pela necessidade de garantirem o respeito pelo traçado em planta e em perfil da EN 379-1 que se manteve inalterado, bem como garantir uma adequada integração no ambiente local:
Os blocos isolados que se encontram apoiados no talude - resultado de desprendimentos ou de uma erosão muito acentuada - e em situação de potencial rutura ou deslizamento, foram pregados ou saneados.
Noutros casos, como a existência de massas rochosas em consola, a solução para a sua estabilização passou por um sistema de pregagens, associado com o preenchimento de betão na zona inferior da massa em consola.
Redes de cabos de aço. Onde o maciço apresentava compartimentação significativa e condições de meteorização e erodibilidade face aos agentes atmosféricos aplicaram--se redes de proteção reforçada com cabos de aço pregadas ao talude. O sistema de pregagens é constituído por varões de 25 mm de diâmetro, em aço A500, com uma malha entre os 2 x 2 m2 e os 2,5 x 2,5 m2 e com comprimentos estimados entre os 6 e os 10 metros. O sistema de redes associado é composto por uma rede metálica de arame galvanizado em malha hexagonal de dupla ou tripla torção sobre a qual foi colocada uma rede de cabos de aço. Este sistema de redes tem uma capacidade mínima de 50 KN.
Redes de Proteção. Nos maciços menos alterados e mais resistentes aos agentes erosivos e cuja fracturação não possibilite deslizamentos de massas importantes a rede aplicada tem como objetivo impedir que qualquer desprendimento atinja a via. Redes de malha dupla ou tripla torção do tipo 8 x 10 ou de arame galvanizado de diâmetro mínimo de 3 mm; as pregagens de topo têm um comprimento de 4 m e diâmetro de 25 mm; na base foi colocado um contrapeso para manter a malha estendida.
Barreiras Dinâmicas. Nas encostas mais afastadas da estrada e em zonas de maiores condicionamentos paisagísticos, foram montadas barreiras dinâmicas para impedir o rolamento de blocos e para diminuir impactes visuais. São estruturas flexíveis colocadas a jusante das escarpas. Redes reforçadas de aço de elevada resistência, com 5 metros de altura, suportadas por postes metálicos fixados transversalmente à encosta através de cabos pregados e escovados com cabos de aço fixados na encosta. Foram consideradas barreiras dinâmicas de média e alta energia, a primeira capaz de resistir a uma energia de cerca de 1500 KJ e a segunda o tendo limite de 3000 KJ.
Pórticos de Proteção. Em situações de escarpa diretamente sobre a estrada que revele interesse do ponto de vista ambiental, adotou-se a solução de proteção da estrada constituída por estruturas de betão armado em pórtico (falso túnel): constitui-se como uma laje de betão suportado do lado de terra por uma parede vertical contínua e do lado do mar por uma filada de pilares e dimensionada para resistir ao impacto de um bloco que caia da encosta. A laje, com uma espessura não inferior a 1 metro, é protegida por uma camada de aterro e recoberta de vegetação, de forma a fazer a ligação à paisagem circundante.
Túnel da Figueirinha. Com extensão de 11,40 metros numa estrutura em arco, é uma estrutura que protege a estrada da queda de blocos e permite observar uma caixa de falha, de interesse ambiental, que se localiza sobre o túnel existente.
Muros de suporte. Em quatro áreas diferenciadas. Desenvolvem-se no lado esquerdo (sentido Portinho da Arrábida / Outão), entre o Km 1+530 e o km 3+008. Uma intervenção que implicou o reperfilamento do talude e a remoção de alguns blocos rochosos. Para a sua melhor integração paisagística a face do extradorso foi revestida com lajetas de calcário. Outra solução de idêntica natureza foi a construção de muros em betão ciclópico para dar continuidade aos muros de alvenaria de pedra argamassada já existentes. Solução encontrada para 4 situações ao longo do percurso, todas do lado esquerdo da plataforma e nenhum excede a altura de 2,5 metros.
Medidas Particulares de Carácter Arqueológico e Ambiental
Em relação à Arqueologia, devido à área de intervenção se revestir de grande interesse patrimonial, foram identificados os locais que exigiam a aplicação de medidas de minimização de impactes negativos e de forma que a afetação dos sítios fosse acompanhada pelo respetivo registo científico. Desta forma, decorreram serviços de Acompanhamento Arqueológico de todos os trabalhos que implicaram remoção de depósitos ou sedimentos.
Quanto à vegetação, de acordo com a "Avaliação Ambiental e Integração Paisagística" efetuada em março de 2005, a serra inclui a amostra mais importante e significativa de maquis mediterrâneo no País e, de um modo geral, a vegetação da área em estudo apresenta um elevado valor botânico e conservacionista, com a presença potencial de inúmeros endemismos e de espécies e/ou ameaçadas. Em todas as intervenções houve a máxima cautela para não afetar as espécies classificadas.
Em relação à fauna, os estudos identificaram 14 espécies de aves, mas a monitorização exerceu-se sobre um casal de falcões peregrinos, através de observações diárias por 2 técnicos, 4 horas antes do pôr-do-sol, durante o mês de abril. Esse estudo demonstrou que os trabalhos realizados não impediram a incubação dos ovos. Em relação aos quirópteros, vulgo morcegos, sendo um maciço de natureza calcária, com numerosas fendas e grutas, abriga importantes comunidades destes mamíferos e foram identificadas cinco espécies, uma delas muito rara. O impacto das obras sobre estas comunidades foi diminuto devido à distância entre o seu habitat e a área das intervenções. Para assegurar a passagem da fauna existente, nomeadamente répteis, foram mantidas aberturas nas redes instaladas com espaçamento regular e com sobreposição adequada.
Ficha de Obra
Dono de Obra
EP - Estradas de Portugal, EPE
Projetista COBA - Consultores de Engenharia e Ambiente Teixeira Duarte, Engenharia e Construções, S.A.
Adjudicatário
Teixeira Duarte, Engenharia e Construções, S.A.
Direção e Fiscalização
Fiscalização, Coordenação de Segurança, Controlo de Qualidade e Controlo Topográfico BRISA, Engenharia e Gestão